Mostrar mensagens com a etiqueta História Postal. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta História Postal. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Uma jóia da História Postal de Estremoz


 
Fig. 1

Fig. 2


Prólogo
Há documentos cuja interpretação permite ao investigador catalogá-los na classe das “jóias”. Uma tal inclusão pode ser devida ao teor do seu conteúdo escrito, bem como ao contexto em que este foi produzido, assim como ao grafismo do próprio documento. Pode até acontecer que estas três situações coexistam, o que potencia o valor e o interesse do documento. Vamos ver que é o que se passa com um bilhete-postal ilustrado, pertencente ao meu arquivo de História Postal de Estremoz.

Descrição do bilhete-postal ilustrado
Trata- se de um inteiro postal, mais propriamente um bilhete-postal de Boas Festas do tipo “Tudo Pela Nação,” com selo impresso da taxa de $30 (30 centavos), destinado ao Serviço Nacional, obliterado com a marca do dia da estação dos CTT, do tipo de 1928, do dia 24 de Dezembro de 1942.  O bilhete-postal tem como motivo os Bonecos de Estremoz. A ilustração é de Laura Costa (activa 1920-1950), e o bilhete-postal foi emitido pelos CTT em 1942.
Na parte superior do rosto do bilhete-postal (Fig. 2), a ilustração é constituída por um tradicional “Berço do Menino Jesus” da barrística popular estremocense, o qual se encontra ladeado por dois ramos de azevinho.
No verso do bilhete-postal (Fig. 1) a ilustração representa uma cena no areal da praia da Nazaré e envolve um casal com os seus trajes tradicionais, acompanhados de duas crianças. Aparentam estar a montar no areal a “Adoração dos Reis Magos”, Presépio de 6 figuras, constituído pela Sagrada Família e pelos 3 Reis Magos.
O bilhete-postal ilustrado foi expedido em 24 de Dezembro de 1942 (véspera do Dia de Natal) por Sá Lemos, dirigido ao Dr. Marques Crespo, em Estremoz.

Sá Lemos, o expedidor do bilhete-postal
José Maria de Sá Lemos (1892-1971), escultor, discípulo de Mestre António Teixeira Lopes (1866-1942), começou a trabalhar como professor e simultaneamente Director da Escola Industrial António Augusto Gonçalves, em 21 de Abril de 1932, data da sua tomada de posse, com base no Decreto de 15 de Março de 1932 publicado no Diário do Governo nº 82 – 2ª série de 8 de Março de 1932.
Pela sua acção fez ressurgir os Bonecos de Estremoz, cuja produção tinha cessado com a morte de Gertrudes Rosa Marques (1840-1921) em 1921. Tal ressurgimento foi conseguido recorrendo primeiro à velha barrista Ana das Peles (1869-1945), que foi o instrumento primordial dessa recuperação e depois ao Mestre oleiro Mariano da Conceição (1903-1959) - O “Alfacinha”, o qual foi o instrumento de continuidade dessa recuperação.
No período que esteve em Estremoz e que se prolongou até 30 de Setembro de 1945, foi vereador do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Estremoz entre 1938 e 1945, durante dois mandatos do então Presidente da Câmara, Engº Manuel Bicker de Castro Lobo Pimentel. São de sua autoria a maqueta em barro e em tamanho natural do Monumento aos Mortos da Grande Guerra e da Fonte do Sátiro, ambos em Estremoz.

Marques Crespo, o receptor do bilhete-postal
José Lourenço Marques Guerreiro Crespo (1871-1955), médico, maçon, membro do Partido Republicano Português e Presidente da Câmara Municipal de Estremoz (1923-1926). Foi fundador e director do semanário regionalista “Brados do Alentejo” (1931-1951), fundador da delegação da Cruz Vermelha Portuguesa de Estremoz, membro da comissão fundadora do Teatro Bernardim Ribeiro e Presidente Honorário do Orfeão Tomás Alcaide. Publicou entre outras obras, a monografia “Estremoz e o seu termo regional” (1950).

Estremoz doutros tempos
O facto de o bilhete-postal ter sido expedido apenas na véspera de Natal, também merece alguma reflexão. Decerto que o remetente sabia que no dia de Natal não havia distribuição domiciliária de correspondência, pelo que a missiva só seria recebida já depois do Natal. O que é que o terá levado a expedir o bilhete-postal postal só na véspera de Natal? Não sei. Todavia, posso admitir como plausíveis duas circunstâncias: – A chegada tardia à estação dos CTT de Estremoz, deste tipo de bilhete-postal de Boas Festas: o nº 42 (preparação do Presépio) de uma série de 12, numerados de 35 a 46, todos com ilustração de Laura Costa e ostentando o mesmo tipo de selo impresso; - O conhecimento tardio por parte do remetente da existência do bilhete-postal nº 42 (preparação do Presépio).
O endereço do destinatário resume-se ao nome deste e não inclui o nome do arruamento nem o número de porta. Para este facto contribuíram, decerto, factores como: - O destinatário ser uma personalidade com destaque na sociedade local e por isso muito conhecido; - O número de arruamentos ser muito inferior ao que é na actualidade; - O brio profissional dos carteiros que os levava a empenhar-se na missão de “levar a carta a Garcia”.

Epílogo
Sá Lemos considerara recuperada a produção de Bonecos de Estremoz em artigo publicado no jornal Brados do Alentejo, em 10 de Novembro de 1935. Ainda nesse mesmo ano, os Bonecos de Ana das Peles participaram na “Quinzena de Arte Popular Portuguesa” realizada na Galeria Moos, em Genebra. Em 1936 estiveram presentes na Secção VI (Escultura) da Exposição de Arte Popular Portuguesa, em 1937 na Exposição Internacional de Paris e em 1940 na Exposição do Mundo Português. Nesta exposição estiveram também expostos os Bonecos de Estremoz de Mestre Mariano da Conceição, os quais no pavilhão expositor eram pintados por sua mulher Liberdade da Conceição (1913-1990), face à impossibilidade de Mestre Mariano estar presente por ser funcionário público.
Os Bonecos de Estremoz adquiriram notoriedade pública e projecção internacional com a Exposição do Mundo Português em 1940, de tal modo que os CTT os utiliza como motivo dos bilhetes-postais de Boas Festas de 1942. Deve ter sido uma suprema felicidade para Sá Lemos, que através do bilhete-postal endereça "um abraço de Boas Festas" ao seu amigo Marques Crespo, o qual através da missiva pôde constatar que os Bonecos de Estremoz andavam a ser divulgados pelos CTT através de mensagens natalícias.
Não há dúvida que a mensagem, bem como o seu contexto e o grafismo, legitimam completamente o título escolhido para o presente texto.

Hernâni Matos

quinta-feira, 9 de maio de 2013

As Missões Laicas em África na 1ª República em Portugal

Capas do volumes I E II de “As Missões Laicas em África na 1ª República em Portugal”
de Pedro Marçal Vaz Pereira.

AS MISSÕES LAICAS EM ÁFRICA NA 1ª REPÚBLICA EM PORTUGAL
Este é o título da mais recente obra de Pedro Marçal Vaz Pereira, a lançar pelas dezassete horas e trinta minutos da próxima segunda-feira, dia 13 de Maio, na Sala Algarve, da Sociedade de Geografia de Lisboa.
O autor, filatelista eminente, escritor e jornalista filatélico, subscreve vasta colaboração em revistas e catálogos de exposições filatélicas, tanto em Portugal como no estrangeiro. Em 2005 publicou a obra em 2 volumes “Os Correios Portugueses entre 1853-1900. Carimbos Nominativos e Dados Postais e Etimológicos”, editado pela Fundação Albertino Figueiredo, de Madrid. É Presidente da Federação Portuguesa de Filatelia (FPF) e foi Presidente da Federação Europeia de Sociedades Filatélicas (FEPA), assim como director das respectivas revistas “Filatelia Lusitana” e “FEPA News”.
A obra, profusamente ilustrada e documentada, é constituída por dois volumes com capa dura, 24 cm x 30 cm, de 528 e 512 páginas, respectivamente. A edição é do autor e tem o preço de lançamento de 80 euros, sendo posteriormente comercializada nas livrarias LeYa.
Trata-se de uma obra prefaciada pelo Professor Eduardo Marçal Grilo e que vem preencher algumas lacunas no conhecimento que temos de certos aspectos dum período conturbado da nossa História Pátria. Por isso mesmo é uma obra que vem enriquecer a bibliografia sobre a 1ª República, que relativamente ao assunto em epígrafe, se limitava à obra “As “Missões Laicas”, de A. Teixeira Marcelino, uma publicação de pequeno fôlego (111 páginas) dada à estampa em 1933, pela Imprensa Moderna, do Porto.
A obra contou muito para a sua elaboração com o precioso espólio do bisavô do autor, Dr. Abílio Corrêa da Silva Marçal (1867-1925), que foi Director do Instituto de Missões Coloniais e do respectivo Boletim das Missões Civilizadoras, do qual saíram com regularidade 24 números no período 1920-1925. Licenciado em Direito, exerceu a advocacia e militou no Partido Dissidente Progressista. Após a implantação da República aderiu ao Partido Democrático, ao lado de Afonso Costa de quem foi muito próximo. Em 1917 foi nomeado Secretário do Governo e exerceu o cargo de Presidente da Câmara dos Deputados, tendo recusado em várias ocasiões, o lugar de Ministro para o qual fora indigitado.

O nº 1 do "Boletim das Missões Civilizadoras", de Abril de 1920.



A CRIAÇÃO DAS MISSÔES LAICAS
A revolução republicana de 5 de Outubro de 1910 teve inúmeras repercussões aos mais diferentes níveis, uma das quais foi a “Lei de Separação do Estado e da Igreja”, promulgada em 20 de Abril de 1911, a qual no seu artigo 189º autorizava o Governo a reformar os serviços do Colégio das Missões Ultramarinas, de Cernache do Bonjardim, vulgarmente conhecido como Real Colégio das Missões.
A 10 de Julho de 1913, houve corte de relações diplomáticas ente Portugal e a Santa Sé. A 22 de Novembro desse ano, pelo Decreto nº 233, o Ministro das Colónias, Dr. Almeida Ribeiro, tornou extensivas às colónias as disposições da Lei de Separação. O artigo 19º do referido Decreto autorizava a criação de Missões Civilizadoras nas províncias de Guiné, Angola, Moçambique e Timor, “com absoluta exclusão de qualquer ensino ou propaganda de carácter religioso”. Missões Civilizadoras foi a nomenclatura oficial atribuída às Missões Laicas, visando uma mais fácil aceitação junto do público.
A 8 de Setembro de 1917, pelo Decreto nº 3352, o Governo do Dr. Afonso Costa reformou o Colégio das Missões Ultramarinas, que passou a intitular-se “Instituto de Missões Coloniais”: “escola de educação de alunos com destino ao serviço das colónias, como agentes de civilização”. Ali passaria a receber formação o pessoal que ia integrar as Missões Laicas, criadas quatro anos antes.
A 7 de Abril de 1920 partiram de Lisboa, com destino a Luanda, as duas primeiras Missões Laicas: a Missão "Cândido dos Reis", e a Missão "Cinco d`Outubro". Posteriormente seguiram para Moçambique, a Missão Civilizadora "Camões", a Missão Civilizadora "Pátria", e a Missão Civilizadora "República". Propunham-se levar aos povos das colónias os grandes valores republicanos da solidariedade e da filantropia, já que “educar o preto pelo trabalho e ensinar-lhe a língua portuguesa” era considerado uma grande obra civilizacional sem que para tal houvesse necessidade de recorrer às ordens religiosas. Abílio Marçal, Director do Instituto que as formou, considerou então tratar-se de um enorme esforço empreendido na área da instrução e da educação cívica, que se traduziu na implantação de oficinas, enfermarias, escolas e internatos, fruto da dedicação republicana.
Com a morte de Abílio Marçal em Junho de 1925, o projecto das Missões Laicas para as colónias paralisou e acaba por ruir com a morte do seu mentor.



OS EVENTOS NA SOCIEDADE DE GEOGRAFIA DE LISBOA
O lançamento da obra de Pedro Marçal Vaz Pereira na Sociedade de Geografia de Lisboa integra-se nas Comemorações do 1º Centenário das Missões Laicas, as quais terão o seguinte desenvolvimento:
- Apresentação de boas vindas aos convidados pelo Professor Aires de Barros, Presidente da Sociedade de Geografia.
- Inauguração da Exposição Histórica das Missões Laicas.
- Lançamento pelo Correios de Portugal da emissão “Centenário das Emissões Laicas” e do respectivo carimbo de 1º dia.
- Apresentação do livro “As Missões Laicas em África na 1ª República em Portugal” pelo Doutor João Pedro Xavier de Brito.
- Conferência sobre “As Missões Laicas em África na 1ª República em Portugal” pelo Senhor Pedro Vaz Pereira.
- Porto de Honra no Salão Nobre.

A EMISSÃO FILATÉLICA
A emissão filatélica “Centenário das Emissões Laicas” é composta por dois selos e um bloco com as taxas de 0,36 e 0,80 euros e um bloco com um selo da taxa de 3 euros. Reproduzem respectivamente:
- Os membros da Missão Civilizadora de Angola:
- Os membros da Missão Civilizadora de Moçambique;
- O Instituto das Missões Laicas em Cernache de Bonjardim.
Para esta emissão filatélica foram criados quatro carimbos de 1º dia, um dos quais além de ser aposto na Sociedade de Geografia de Lisboa será igualmente aposto nas correspondências apresentadas para o efeito na Loja de Filatelia de Lisboa. Os restantes serão apostos nas Lojas de Filatelia do Porto, Ponta Delgada e Funchal.



O selo da taxa de 0,36 € da emissão "Centenário das Missões Laicas".
O selo da taxa de 0,80 € da emissão "Centenário das Missões Laicas" .
 O bloco da taxa de 3,00 € da emissão "Centenário das Missões Laicas".

Os quatro carimbos de 1º dia da emissão "Centenário das Missões Laicas".

terça-feira, 24 de julho de 2012

A Greve dos Correios de 1920 em Estremoz


Fig. 1 - Bilhete-postal que durante a Greve dos Correios seguiu o trajecto
LISBOA-PORTALEGRE-ELVAS-ESTREMOZ.

1. INTRODUÇÃO
Em recente artigo (1), cuja leitura vivamente aconselhamos, o nosso estimado Amigo, Senhor Eng.º Armando Vieira, relata-nos um episódio da Greve dos Correios de 1920 (2), cuja história aí se reconhece está ainda por fazer. A finalizar o seu brilhante artigo sobre este interessante período da nossa História Postal, lança um apelo aos filatelistas para examinarem as correspondências circuladas em Março de 1920, pois a correspondência processada durante o período da Greve é portadora de curiosas marcas apostas por entidades que substituíram os grevistas.

2. MARCA "ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE ELVAS"
Quis o Deus Acaso que num pequeno lote de correspondência que nos foi oferecida por mão amiga, viesse incluído um bilhete-postal (Fig. 1) processado durante o período da Greve.
O referido bilhete-postal (3) foi escrito por D. Maria do Carmo S. de Araujo, moradora na Calçada Marquês de Abrantes, 95-3º esqdº, em Lisboa, a sua amiga D. Lucrécia Rodrigues Fragoso, em Extremôz. Datado de 3 de Março de 1920 (1º dia da Greve dos Correios), foi expedido de Lisboa nesse dia, tendo recebido a flâmula obliterante então em uso na estação de Lisboa Central. A mensagem do bilhete-postal é a seguinte:

"Recebemos a sua estimada carta e as amostras.
Fomos a casa de sua Ex.ma Cunhada perguntar
por seu Ex.mo Marido e disseram-nos que já não
estava. E como veio a greve do c. de ferro, temos
estado à espera. Mas como hoje nos disseram que
seguia o correio por Portalegre, rogo-lhe a fineza
de dizer o que deseja que se faça.
Os nossos cumprimentos e creiam-nos sempre ao
seu dispor.
Sua amiga e muito obrigada
M.ª do Carmo S. de Araujo"

O bilhete-postal apresenta a marca de chegada a Estremoz (4) no dia 26 de Março de 1920, decorridos que são 23 dias sobre a sua expedição! Apresenta ainda duas marcas interessantíssimas. Uma delas, batida a azul-escuro, é da "ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE ELVAS", entidade que substituiu os grevistas elvenses e que atesta o estranho itinerário seguido pelo bilhete-postal: LISBOA - PORTALEGRE - ELVAS - ESTREMOZ. A outra marca, batida a azul esverdeado, é de numerador e tem o número 10556. Pela diferença de cores entre estas duas marcas, estamos em crer que a Associação Comercial de Elvas não numerou a correspondência por si marcada e processada durante a Greve dos Correios. Inclinamo-nos mais para esse número ser um número de ordem da folha de cartolina na respectiva remessa à Casa da Moeda, local onde foi impresso o bilhete-postal.
Está ainda por investigar o modo como foi conduzida no trajecto LISBOA-PORTALEGRE-ELVAS-ESTREMOZ, a mala postal que transportava o bilhete-postal que vimos referindo. Não podemos esquecer que a rede de transporte e permuta de malas postais estava desorganizada, uma vez que também abrangia as Ambulâncias Postais Ferroviárias e que a greve dos Caminhos de Ferro foi agravada pela Greve dos Correios.

Fig. 2 - Não podendo seguir o trajecto usual: LISBOA - BARREIRO - VENDAS NOVAS -
- TORRE DA GADANHA - CASA BRANCA - ÉVORA - ESTREMOZ, o bilhete-postal seguiu
o trajecto: LISBOA – SETIL – ENTRONCAMENTO - ABRANTES - TORRE DAS VARGENS -
 PORTALEGRE - ELVAS. Em 1920 não existia o ramal PORTALEGRE - ESTREMOZ ,
que só foi inaugurado em 21-1-1949. Por outro lado nunca houve ligação ferroviária
entre ELVAS e ESTREMOZ, pelo que entre estas duas últimas localidades,
o bilhete-postal terá tido outro meio de transporte que não o Caminho de Ferro.
Transporte Militar? Transportado pela Guarda Nacional Republicana?
Transportado por recovagem ou por um particular? Não sabemos.

Fazendo fé na mensagem do bilhete-postal, sabemos que ele seguiu no combóio Lisboa-Portalegre no primeiro dia da Greve dos Correios, na qual também participaram os funcionários das Ambulâncias Postais. A consulta do mapa dos Caminhos de Ferro Portugueses dessa época permite-nos tirar duas conclusões (Fig. 2):
- PRIMEIRA: a mala postal saída de Lisboa seguiu por Setil, Entroncamento, Abrantes, Torre das Vargens e Portalegre;
- SEGUNDA: devido à Greve dos Caminhos de Ferro, a mala postal não seguiu em direcção a Estremoz o trajecto usual: Lisboa, Barreiro, Vendas Novas, Torre da Gadanha, Casa Branca, Évora, Estremoz.
Concluído isto, põe-se a questão de saber quem conduziu a mala com o bilhete-postal entre Portalegre e Elvas. Provavelmente a Ambulância Postal que o trouxe de Lisboa e que deverá ter furado a greve. E no resto do trajecto quem conduziu a mala postal onde ia o bilhete-postal? Militares? Guarda Republicana? Particulares ? Não sabemos. É um assunto que procuraremos investigar e que se formos bem sucedidos, divulgaremos. Podemos, porém, desde já assegurar que, de Elvas para Estremoz, o bilhete-postal não seguiu pelo Caminho de Ferro, uma vez que em 1920 não existia o ramal Elvas-Estremoz, assim como também não existia o ramal Portalegre-Estremoz. Para além disso, só uma certeza temos: a marca "ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE ELVAS", batida a azul escuro, é rara.

3. A GREVE DOS CORREIOS EM ESTREMOZ
O interessante bilhete-postal da Fig. 1 levou-nos a investigar os aspectos assumidos pela Greve dos Correios em Estremoz, visando reconstituir a história local daquele período conturbado da nossa História Postal. Para o efeito socorremo-nos da imprensa local daquela época ( os semanários "O Jornal de Estremoz”e "O Eco de Estremoz”) e tentámos fazer uma cronologia da Greve (5):
3 de Março - Após a declaração da Greve Telégrafo-Postal, os empregados da estação (6) da vila (7), solidários com o movimento grevista, abandonam o serviço.
5 de Março - Foi a Estremoz o chefe dos Serviços Telégrafos-postais de Évora, sr. Alegria Vidal, que não aderiu à Greve, acompanhado do sr. Coronheiro Ramos, a fim de persuadir o pessoal de Estremoz a retomar o trabalho. Este, manteve-se firme na sua atitude grevista, tomando então conta da estação o sr. Coronheiro Ramos.
6 de Março - Foi solucionada a greve dos ferroviários, circulando já os comboios, mas mantêm-se em greve os empregados dos Correios e Telégrafos.
13 de Março - O Governo promulga o Decreto nº 6448 (Diário do Govêrno nº 51, 1ª série, 1920), pelo qual são concedidas indistintamente, aos funcionários civis do Estado, determinadas quantias, a título de "Ajuda de Custo de Vida". O funcionalismo retoma então o trabalho, com excepção da maioria dos funcionários dos serviços telégrafos-postais.

Fig. 3 - Estremoz: A estação telegrafo-postal situava-se em 1920 no primeiro andar de um
edifício do Largo da República, à direita e não visível na imagem. 

15 de Março - O pessoal dos Correios e Telégrafos resolveu retomar o trabalho, afixando na porta da entrada da estação (Fig. 3) o seguinte comunicado:
“AO PUBLICO”
“O pessoal telegrafo-postal de Estremoz, revendo "o abono de ajuda de custo da vida", concedido aos funcionários publicos, não discordando dele em absoluto e levando em conta as promessas feitas pelos ex.mos srs. Presidente da Republica e Presidente do Ministerio de que a equiparação de vencimentos será um facto logo que reabra o Parlamento, resolveu retomar o trabalho, não deixando porém de continuar a dar o seu apoio moral ao funcionalismo que ainda fica em luta para se conseguir uma ajuda de custo da vida, mais equitativa.
Estremoz, 15-III-20
O pessoal telegrafo-postal de Estremoz.”

Fig. 4 - Estremoz: Fachada do Café Águias d'Ouro
nos anos vinte do séc. XX.

16 de Março - Um dia depois de ter voltado ao serviço, o pessoal da estação de Estremoz retoma a Greve, afixando no Café Águias d'Ouro (Fig. 4) novo comunicado, desta feita com o seguinte teor:
"AO PUBLICO"
"O pessoal telegrafo-postal desta vila, por razões que expoz por escrito ao sr. Comandante da Brigada (Fig. 5), abandona hoje novamente o serviço, tomando o compromisso de voltar ao seu lugar quando, termine de facto a greve telegrafo-postal.
Garante por sua honra ter feito a distrubuição, de toda a correspondência postal existente e de possível entrega e ter deixado as comunicações telegraficas internas normais, não sendo da sua autoria as avarias existentes nas linhas.
Pelo pessoal telegrafo-postal,
Joaquim Vicente Bento
3º oficial"

Fig. 5 - Estremoz: O edifício onde nos anos 20 do séc. XX funcionava o quartel general da Brigada.

20 de Março - “O Jornal de Estremoz” relata o regresso ao trabalho dos funcionários telegrafo-postais no dia 15 e o retorno à greve a 16, "com o que a opinião pública muito se indignou".
21 de Março - "O Eco de Estremoz” relata também o regresso ao serviço dos funcionários dos Correios e Telégrafos a 15 e o reinício da greve a 16 e exclama: "Que incoerência ! Que desassombro !”Diz ainda desconhecer as razões expostas ao Comandante da Brigada.
O mesmo jornal diz ainda que os sargentos do 4º Grupo de Metralhadoras, aquartelados (Fig. 6) na vila, se ofereceram ao Comandante da Brigada, para prestar serviço na estação telegrafo-postal. Por enquanto não conseguimos apurar se estes préstimos foram ou não aceites e utilizados.

Fig. 6 - Estremoz: O quartel do 4º Grupo de Metralhadoras
situava-se no edifício onde hoje funciona a Pousada da
Rainha Santa Isabel.

24 de Março - O Governo promulga o Decreto nº 6468 (Diário do Govêrno nº 60, 1ª série, 1920), mandando proceder ao levantamento de autos de abandono de lugar ao pessoal dos Correios e Telégrafos que não esteja no exercício das suas funções.
3 de Abril - O Ministério do Comércio e Comunicações envia portarias para publicação (Diário do Govêrno nº 80, 2ª série, 1920), determinando inquéritos às responsabilidades dos funcionários dos Correios e Telégrafos nos actos de sabotagem praticados no material dos serviços, em Março de 1920. Manda ainda publicar portarias nomeando a composição das Comissões de Inquérito. São nomeadas três: uma para Lisboa, outra para o Porto e ainda outra para o resto do país. Esta última tinha por função apreciar os relatórios enviados pelos governadores civis dos diferentes distritos, elaborando por sua vez um relatório em que iria discriminar as responsabilidades dos funcionários implicados nos referidos actos de sabotagem.
“O Jornal de Estremoz” referindo-se à greve diz: "Publicamos para ficar arquivada nas colunas do nosso semanario, a resposta que o governo deu à Imprensa que a pedido daqueles funcionários, foi intermediaria para a solução dum problema que tantos e graves prejuízos deu ao paiz:
“O governo, ouvindo as considerações expostas pelos representantes da Imprensa, resolveu permitir o regresso, aos seus serviços, dos funcionarios telegrafo-postais, sem assumir com eles quaisquer compromissos, embora disposto, como o afirmou aos mesmos representantes da Imprensa, a usar da benevolência compatível com a dignidade do poder e os superiores interesses do paiz". A terminar, "O Jornal de Estremoz” crescenta: "Em face disto, os telegrafo-postais deverão retomar o trabalho até às 13 horas do dia 30 do corrente"(8).

4. À MARGEM DA GREVE
Em 1920, o Cinema, ainda nos seus primeiros passos, despertava enorme interesse pela sua quase novidade. As sessões de cinema eram mais frequentes que as peças de Teatro levadas à cena e constituíam um espectáculo de agrado popular. Vejamos como a Greve dos Correios teve reflexos negativos entre os cinéfilos de Estremoz. O "Jornal de Estremoz” referindo-se sempre ao Ciné Estremoz diz:
6 de Março - "Deve começar brevemente a exibir-se neste salão a grande e extraordinária fita MASCARA VERMELHA em 32 partes. Esta fita que tem sido corrida em muitos salões, tem feito sucesso pelo seu entrecho, scenario e guarda-roupa".
13 de Março - "Está despertando grande interesse a fita MASCARA VERMELHA, que o emprezario do cinema vai apresentar ao publico brevemente".
20 de Março - "A fita MASCARA VERMELHA, que o emprezario tem contratada e que deveria estar já a exibir-se, só o poderá ser quando haja correio de Lisboa."
Depois de tanta promoção não é de estranhar que os cinéfilos estremocenses, se outros motivos não houvesse, tenham ficado danados com a Greve dos Correios. Finalmente, o mesmo jornal continuando a referir-se ao citado salão de cinema diz:
10 de Abril - "Continua hoje e amanhã, neste salão, a correr-se a fita de grande espectáculo a MASCARA VERMELHA, terceira e quarta serie."
Daqui depreendemos que só em princípios de Abril ficou normalizada a distribuição do correio de Lisboa.
O referido jornal noticiava ainda:
10 de Abril - "Regressou de Lisboa, aonde foi escolher a fita cinematográfica, que deve ser exibida à que actualmente está sendo corrida no Ciné Estremoz, o sr. Pascoal da Graça".
Este senhor deslocou-se a Lisboa para escolher uma fita que sucedesse ao MASCARA VERMELHA, mas anteriormente não o fez para trazer consigo esta última fita, talvez porque esta já estivesse retida devido à Greve dos Correios. Pela mesma razão não deverá ter recorrido aos serviços de estafeta, que de acordo com o número de 6 de Março, do mesmo jornal, ia a Lisboa, domingos e quintas-feiras.
A propósito de ter regressado de Lisboa, o sr. Pascoal da Graça, é de salientar que na época, face à distância a percorrer e aos meios de locomoção à disposição do público, não era muito vulgar viajar até Lisboa, pelo que os dois semanários de Estremoz davam conta em todos os números dos conterrâneos que viajavam até à capital e na maioria das vezes indicavam os motivos dessa viagem.
Não só os cinéfilos estremocenses sentiram os efeitos da Greve dos Correios. Também os "vates” locais deram um ar da sua graça. Vejamos os versos em jeito de "pé quebrado", publicados a 21 de Março desse ano em "O Eco de Estremoz":

"PELA SEMANA
 
Aqui d'el-rei quem m'acode
Tenho em gréve as mioleiras,
Depenado até mais não
Tenho em gréve as algibeiras.

Quiz resolver esta gréve
Esta gréve endiabrada...
Meto a mão na algibeira
E a gréve estava furada.
 
Ficou apenas de pé
E com aspecto guerreiro
A gréve fenemonal
Dos bacharés em carteiro.
 
Na falta d'estes senhores
Dos grévistas os primeiros.
Tem a gente, por mal nosso
De fazer d'alcoviteiros.

Jorge A.Caius"


(1) - Dado à estampa no Catálogo do Salão Filatélico "Ceres", patente ao público na Escola Superior de Educação do Porto, de 28 de Fevereiro a 1 de Março de 1992.
(2) - A Greve teve lugar sobretudo entre 3 e 20 de Março de 1920, mas nalguns locais ultrapassou este período.
(3) - Bilhete-postal "Ceres", de 2 centavos, ocre, impresso em cartolina camurça, nº 61 O.M.
(4) - COPRº E TELº / ESTREMOZ. A marca é do tipo de 1880 e batida a preto. Tem a particularidade do primeiro R de CORRº estar partido, lendo-se COPRº em vez de CORRº. Aquela letra aparece já partida em correspondência datada de 1912.
(5) - Integrada no movimento grevista do funcionalismo público, a Greve dos Correios teve início a 3 de Março e visava lutar contra o aumento do custo de vida.
(6) - A estação telegrafo-postal de Estremoz ficava em 1920 situada no nº 38-1º do Largo da República.
(7) - Estremoz só foi elevada à categoria de cidade pelo decreto 12227 (Diário do Governo nº 192 - 1ª série, de 31 de Agosto de 1926).
(8) - Embora só publicada a 3 de Abril, a notícia foi redigida antes de 30 de Março.

Hernâni Matos
(O presente texto foi publicado como artigo
 “NOVO EPISÓDIO DA GREVE DOS CORREIOS DE 1920”
in Correio do Alentejo, nº 5, Estremoz, Setembro de 1993.)
Publicado inicialmente neste blogue a 24 de Julho de 2012